Wednesday, September 27, 2006

Requiem pela casa de Garrett *

In memoriam de Cristina Futscher Pereira,
no primeiro aniversário da sua morte

Na crónica deste ano de 2006 ficará registado um acontecimento que, sem a repercussão de outros de maior imediatismo e preponderância na vida nacional, é deveras emblemático do nosso já antigo desleixo cívico e cultural, se não for mesmo sintoma de doença mais grave. Falo da demolição da casa em que morreu o poeta, dramaturgo, romancista, ensaísta, e figura preponderante da vida portuguesa da primeira metade do século XIX, Almeida Garrett.
Nascido no Porto, Garrett veio para Lisboa com dez anos de idade, iniciando assim um itinerário de certo nomadismo, que passa pelos Açores, pelos exílios, pelas funções desempenhadas no exterior, mas também pela inconstância da residência. Não diz ele nas Viagens na Minha Terra «De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo num lugar, e não posso sair dele sem pena?» Esta mesma frase usou Henrique de Campos Ferreira Lima, estudioso que devotou muito do seu esforço à investigação da biografia garrettiana, num artigo da revisa Olisipo (Outubro de 1939) dedicado precisamente ao levantamento das casas onde o poeta residiu, por períodos de duração variável, em Lisboa. E foram muitas.
Apesar disso, aquela última casa da antiga Rua de Santa Isabel, actual Rua Saraiva de Carvalho, adquiriu uma importância particular. «Foi com esta casa, supondo que, talvez, seria aquela onde, por mais tempo, se fixaria até à sua última morada, que o poeta teve maiores preocupações», afirma Ferreira Lima no artigo já citado. Garrett escolheu-a, mandou arranjá-la, cuidou de a mobilar e decorar com extremos cuidados antes de ir habitá-la com sua filha. Gomes de Amorim descreve minuciosamente a casa pronta nas suas Memórias Biographicas de Garrett, que constituem a principal fonte de informação de Ferreira Lima, mas também de José Osório de Oliveira em O Romance de Garrett e de todos quantos se têm interessado pela biografia do poeta: a entrada, o jardim, no andar nobre a saleta, a livraria com as quatro estantes, a cadeira abacial, o quarto de paredes forradas de papel verde e festões de rosas. Esta era a casa ansiada, na qual Garrett entrou a 30 de Outubro de 1854 e onde, pouco mais de um mês depois, morrerá às 6 horas e 25 minutos do dia 9 de Dezembro.
O fiel Gomes de Amorim, que acompanhou a agonia do escritor, conta com repulsa e patético desgosto o abandono a que alguns dos seus próximos o votaram: «Eram outras, inteiramente outras as circunstâncias; porém não faltava muito para que a morte de Garrett fosse igual à de Camões. Graças a Deus, que tal não sucedeu. Semelhante opróbrio basta que se veja uma vez em mil anos, para deixar uma eterna mancha na face da nação que o consentiu».
Quando desapareceu, aos 55 anos, Garrett não era propriamente um desconhecido. Estivera presente nos momentos cruciais da vida política do seu tempo e nem a sua acção nem a sua figura tinham passado despercebidas. Culturalmente, deixou marcas indeléveis. Literariamente, nenhuma figura relevante posterior pôs em causa a sua importância ou rejeitou a sua herança. O Frei Luís de Sousa, as Folhas Caídas e As Viagens na Minha Terra ocupam um lugar inamovível na história do nosso teatro, da nossa poesia, da nossa narrativa, e são consistentes com o resto da sua obra, incluindo a recolha pioneira que o Romanceiro constitui.
Em todos os momentos da história do último século houve quem reivindicasse filiações garrettianas. Uns saudaram o nacionalista, outros celebraram o liberal, uns sublinharam mais o seu apego aos valores da pátria e o amor das raízes, outros o seu apego aos valores do povo e aos ideais democráticos, uns reviram-se mais no dandy, outros no político, mas a admiração literária foi sempre comum. E as suas circunstâncias humanas sempre foram comummente respeitadas.
A preservação da casa onde o escritor viveu os últimos dias da sua vida tinha o mais alto interesse simbólico, por representar o gesto intencional de vincular a sua figura ao lugar e à cidade, tornando mais palpável uma geografia pessoal capaz de nos restituir a sua presença.
O edifício apresentava um valor arquitectónico e histórico intrínseco, mas o facto de Garrett ali ter vivido dava-lhe uma particular representatividade, o facto de ali ter morrido envolvia-o numa aura. A gravura reproduzida nestas páginas**, publicada no Archivo Pittoresco, que iniciou a sua publicação em 1857, e a conhecida aguarela de Ribeiro Cristino quase constituem uma tradição iconográfica que, somada às tentativas que desde 1874 se fizeram para que o edifício fosse classificado, sublinham o facto de a casa imprimir carácter àquele lugar.
A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado.
As cidades renovam-se, transformam-se, acumulando no seu seio várias idades, sobrepondo referências urbanas, para o bem e para o mal. Mas a história urbana não se revela apenas nas casas, ruas e praças, mas também na gente que as habitou e percorreu, e nelas fez história.
Não existe entre nós, talvez, suficientemente enraizado, o instinto de preservar, nem o gosto de dar a ver o passado de um modo simultaneamente imobilizado e vivo, numa sequência de aprendizagem, abrindo caminhos a novas peregrinações, fixando na cidade novos pontos de referência que dêem mais espessura à sua história íntima. Ou talvez falte sobretudo amor à cultura, por não termos colectivamente interiorizado que ela é tudo o que somos, e nela se reflecte tudo o que não somos. Ou, então, teremos de acreditar que as palavras de Garrett continuam a fazer sentido, mais de século e meio depois: «Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espírito...»
Jorge Colaço
*Artigo publicado no volume colectivo Annualia 2006-2007, Editorial Verbo, Lx., 2006, nas livrarias a partir da próxima semana.
** Ver gravura neste post de Março.

Tuesday, September 19, 2006

Casas onde, em Lisboa... (16)

Nesta casa foi colocada, em 1865, uma lápide de mármore branco, guarnecida de cortinas, em que se lê a seguinte inscrição, que tem por cima uma pequena lira:
No dia 9 de Dezembro de 1854
falleceu n'esta casa
o poeta portuguez
Visconde de Almeida Garrett
Foi esta lapide feita nas officinas de
Sergio Augusto de Barros
e assente na dita casa
no dia 25 de Junho de 1865 -- ao meio dia.
Por várias vezes foi apresentada sugestão para esta casa ser considerada monumento nacional, como consta das seguintes publicações:
Boletim Architectonico e de Arqueologia, 3.ª vol. 1874, 2.ª série, pág. 138; Relatorio e mappas acerca dos edifícios que devem ser classificados monumentos nacionais apresentados ao governo pela Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes em conformidade com a portaria do Ministerio das Obras Publicas de 24 de Outubro de 1880, Lisboa, 1881 (entre os Logares memoraveis menciona a casa do Visconde d'Almeida Garrett, na rua de Santa Isabel); Monumentos nacionaes, por Gabriel Pereira, Lisboa, 1900 (entre as Casas memoráveis aponta a de Garrett, em Lisboa) e Subsídios para a classificação dos monumentos nacionais, Lisboa, 1904 (entre os Logares memoraveis, de Lisboa, indica a Casa do Visconde de Almeida Garrett, na rua de Santa Isabel, informando: «é a casa em que residiu nos seus ultimos tempos, e onde morreu o illustre poeta».)
Apesar destas sugestões não foi considerada monumento nacional, por isso não vem incluida no folheto Monumentos nacionais -- Legislação e classificação, Lisboa, 1923.
Actualmente é proprietária da casa onde faleceu Garrett, a sr.ª D. Maria Pinto Soares e Silva, avó do sr. Augusto Pinto Soares e Silva, casado com a sr.ª D. Maria Clotilde Torres Pinto Soares e Silva.
Visitaram esta casa, muito recentemente, os distintos jornalistas srs. Artur Portela e Couto Rodrigues, que, respectivamente, deixaram as suas impressões no Diário de Lisboa, e no Fradique, de 10 de Maio de 1934, neste em artigo intitulado: Na casa em que morrera Almeida Garrett.
A casa onde morreu o grande poeta Almeida Garrett é indicada aos visitantes de Lisboa na Guia do forasteiro nas festas antonianas, Lisboa, 1895, e no Roteiro das ruas de Lisboa, de Sebastião Pacheco.
(fim da reprodução do texto sobre as casas que Garrett habitou em Lisboa, publicado por Ferreira Lima no Boletim dos Grupo «Amigos de Lisboa», em 1939)

Casas onde, em Lisboa... (15)

Gomes de Amorim, em largas páginas das Memorias de Garrett, descreve, pormenorizadamente, esta última residência de Garrett.
Apenas resumiremos um pouco o que lá vem.
No rés-do-chão ficava a porta principal, que dava para um pequeno vestíbulo, tendo de cada lado uma janela de grades e um portão. O portão da esquerda era o da cavalariça e o da direita correspondia a uma rampa que levava aos pátios, jardim e quintal.
O andar nobre tinha cinco janelas de frente: duas da biblioteca, duas da sala e uma da saleta.
Nesse mesmo andar ficavam o quarto de cama, com a respectiva retrete; o quarto destinado à filha; a casa de jantar, com a sua copa e a cozinha. Nas águas-furtadas havia ainda dois quartos, um, provisoriamente reservado para sua filha e outro para a criada.
As diferentes divisões estavam guarnecidas por móveis artísticos e de bom gosto.
Assim, na biblioteca patenteavam-se as duas magníficas estantes de pau santo e jacarandá, que lhe haviam sido oferecidas pelo Duque de Palmela; outras duas estantes, mais modestas, que estão na Biblioteca Pública de Angra; um bufete, presente do ministro do Brasil, em Lisboa, Vasconcelos Drummond e a célebre cadeira abacial, que fôra de seu tio D. Fr. Alexandre da Sagrada Família, que, presentemente, pertence ao Museu do Conservatório Nacional de Música.
No quarto de cama havia, entre outros móveis, uma magnífica cama de pau santo, em estilo sebastianista; na sala viam-se mesas de embutidos, bufetes, banquinhas, cadeiras, colunas torneadas, etc., e na casa do jantar estava colocada uma mesa elástica de um só pé, dois móveis hamburgueses e doze cadeiras cobertas de marroquim.
«Como casa particular, foi a sua apesar de pequena, escreve Gomes de Amorim, a primeira que em Lisboa se conheceu ornada quase toda de móveis antigos restaurados. Havia-as muito mais ricas, de pessoas opulentas; nenhuma de mais harmonia no conjunto artístico».
Foi nesta casa que, pelas seis horas e vinte e cinco minutos da tarde de sábado, nove de Dezembro de mil oitocentos e cinquenta e quatro, se finou o Divino, como a Almeida Garrett chamavam, em Coimbra, os seus condiscípulos.
Gomes de Amorim aventou a ideia de se conservar, intacta, esta casa, constituindo-se, assim, um Museu Garrett.
Na revista Atlântida, de 1916, referiu-se, também, o ilustre escritor João Grave à sua adaptação a museu. (continua)

Friday, September 01, 2006

Casas onde, em Lisboa (14)

No ano de 1854, para ficar mais próximo da sua filha, que, então, era educanda do Convento das Salésias, foi morar para a rua da Junqueira, n.os 1 a 7, numa casa, construída no antigo Forte da Estrela, de que era proprietário o Marquês de Angeja.
Escreve o seu biógrafo: «Num domingo do mês de Junho de 1854, tendo já alugado os baixos da casa do Marquês de Angeja, para ir passar ao pé da filha o resto do verão…»
E, mais adiante, dá informações mais minuciosas acerca desta residência: «Seguindo a estrela do seu último rumo, e no intuito de ficar mais perto da filha, tomou o rés-do-chão da casa do marquês de Angeja, no princípio da rua Direita da Junqueira, à esquerda, indo para Belém. É a que tem na parede o letreiro da citada rua e à esquerda uma peça de artilharia de ferro, cravada no chão com a culatra voltada para cima. A porta de entrada, para um pequeno largo ou recanto, mostra o n.º 1».
Nesta casa o visitavam, amiúde, Gomes de Amorim, os seus vizinhos Pintos, a família de D. Pedro Moscoso, que morava no primeiro andar, e certas senhoras suas vizinhas, influentes na escolha daquele sítio, segundo as informações do seu minucioso biógrafo.
Ali compôs a comédia intitulada O Conde Novion, a pedido deste, para acompanhar a representação do seu drama Ódio de raça.
«Ali se instalou em Junho, cedendo dois ou três quartos, à entrada, a uns parentes do visconde da Luz, casados de pouco tempo. Lembro-me que o marido tinha o apelido de Pinto; era militar e de muito agradável trato Os aposentos de Garrett continuavam para o lado da Junqueira. Eu tinha ali um quarto, com janela sobre o páteo arborizado, que deita para a travessa».
Foi ainda no princípio deste ano, em 5 de Janeiro, que alugou a casa da rua de Santa Isabel, n.º 56, que depois mudou para o n.º 78, em que foi o primeiro inquilino. Era seu proprietário Francisco José de Araújo Barros.
Em Fevereiro, como informa Gomes de Amorim, já lá andava o armador Gaspar, e antes do fim de Junho, para ela se fez a mudança dos móveis da casa da rua do Salitre, a que assistiu o poeta.
Arrumada a livraria, houve ali um almoço de inauguração a que assistiram, além de Gomes de Amorim, os escritores Mendes Leal, Rebelo da Silva e Felner.
Foi com esta casa, supondo que, talvez, seria aquela onde, por mais tempo, se fixaria até à sua última morada, que o poeta teve maiores preocupações.
Sucedem-se as cartas, com minuciosas instruções, para o dedicado Manuel José Gonçalves, escrivão do Depósito Público, acerca da reparação dos móveis, da sua arrumação; colocação de cortinas, de passadeiras, de papéis, de candeeiros; pinturas diversas, etc.
Ele e Gomes de Amorim, com a colaboração de Militão José Ferreira, armador que veio substituir o negligente Gaspar, arrumaram a casa e os móveis; arranjaram o jardim, onde foram plantadas várias espécies botânicas; fizeram acender os fogões para que as tintas secassem; contrataram criados; mandaram polir as carruagens, etc. Em suma, empregaram a sua actividade a fim de que o poeta viesse tomar posse da casa, com tudo disposto nos seus lugares.
Este, tendo adoecido na Junqueira, foi, assim mal disposto e achacado que, em 30 de Outubro de 1854, entrou na sua nova casa, onde exalaria o seu último alento. (continua)

Casas onde, em Lisboa (13)

No ano de 1851 foi o nosso poeta veranear... para Belém.
«No 1.º andar da casa n.º 16, em Belém, na correnteza de casas que vai do largo ou praça de D. Fernando para a actual ponte dos vapores, ao pé dos arcos, que olham para o rio, passou o poeta o fim do verão e parte do outono de 1851», informa o seu biógrafo.
No ano seguinte igualmente escolheu Garrett o sítio de Belém para o seu veraneio...
Lê-se nas Memórias, de Gomes de Amorim: «O poeta passou o resto desse verão e o começo do outono na casa do arco da passagem para a torre (de Belém), a qual tem hoje o n.º 40, na porta do meio, à direita, indo do Bom Sucesso».
De 22 de Setembro datou, de Pedrouços, uma carta dirigida a Gomes de Amorim.
Este informa sobre o assunto: «Garrett fôra passar esse verão e parte do outono em uma casa do largo do páteo das Vacas. É uma das que têm hoje o n.º 36 ou o n.º 40, subindo, à direita. Afirmo ser uma dessas, mas, apesar de lá ter ido estes ano (1882) verificar, não ouso dizer em qual das duas foi, receoso de que a memória me engane». (continua)